Capítulo 1 - A lendária Sannin
– Não se meta nos meus assuntos – disse ele, ríspido –, não é da sua conta.
– Eu sei que você me odeia. Desde o início você não conseguia me suportar... – levantei minha cabeça e olhei em sua direção. – Você se lembra de quando nos tornamos Genin e a nossa equipe de três integrantes foi escolhida? Nós ficamos sozinhos pela primeira vez aqui neste mesmo lugar. Você ficou com raiva de mim naquele dia...
“– Pense bem, ele sempre faz a primeira coisa que lhe vem á cabeça, mas se ele não tem pais para orientá-lo, como vai saber? Ele é egoísta, sem esforço, ele está tão sozinho – zombei.
– Sozinho, e isolado.
– Uh?
– Não tem nada a ver com as broncas dos pais. Você não tem ideia do que é estar sozinho. – disse ele, parecendo irritado.
– Por que é que está me falando isso? – perguntei um pouco assustada e ele olhou para trás, me olhando com um olhar raivoso e enigmático.
– Porque você me irrita.”
Eu sentia as lágrimas correrem livremente pelo meu rosto, uma dor aguda em meu peito tornava a situação ainda mais dolorosa, mas fita-lo, mesmo de costas á mim, como no dia em que recordara, ainda me tranquilizava. Ele ainda estava aqui, poderia mudar de ideia.
– Eu não lembro disso. – respondeu ele.
– Ah, é claro, já faz tanto tempo. – abaixei minha cabeça e fiquei olhando para meus pés. – Mas foi naquele dia que tudo começou, você, eu, Naruto, e Kakashi-sensei. Eram tão divertidos. – sorri fraco, me lembrando dos bons momentos que a Equipe 7 passou. – Eu sei sobre o seu clã, Sasuke, mas buscar vingança... isso não trará felicidade a ninguém. Ninguém mesmo. Nem a você, e nem a mim...
– É como pensei.
O olhei assustada e um tanto confusa com o que ele quis dizer.
– Eu sou diferente de vocês. Escolhi um caminho que vocês não podem seguir. – disse ele, com as mãos nos bolsos de sua bermuda. – Eu sei que nós quatro trabalhamos muito, durante algum tempo, eu pensei que poderia pegar aquela estrada, mas, finalmente, eu me decidi pela minha vingança. Esse é o objetivo da minha vida. Eu nunca vou ser como você ou o Naruto.
– Não faça isso, Sasuke! – supliquei, sentindo minhas lágrimas escorrerem ainda mais e meu coração acelerar. – Você não precisa ficar sozinho, você me disse naquele dia como a solidão pode ser dolorosa, e eu entendo essa dor agora. Eu tenho uma família e amigos, mas... – dei um passo á frente, em sua direção – Se você for embora agora, Sasuke, pra mim vai ser a mesma coisa que estar sozinha.
– Este é um novo começo, cada um de nós tem um novo caminho para seguir.
– Sasuke, eu te amo tanto que nem consigo suportar! – exclamei desesperada, quase como um suplique. – Se você ficar comigo, eu prometo que não vai se arrepender disso, todos os dias vão ser divertidos, eu vou fazer você feliz, eu faço qualquer coisa por você, Sasuke, então por favor, eu estou implorando, não vá embora! Eu até lhe ajudo com sua vingança, farei o que for preciso para que ela aconteça, eu juro. Por favor... – funguei por causa do choro que não cessava – Fique aqui... Comigo. E se você não puder, me leve com você Sasuke!
Meu corpo tremia, tanto pelo vento quanto pelo medo. Seu silêncio me deixou mais tensa e minha respiração agora pesava.
Ele virou para trás, com um olhar calmo e enigmático, me recordando no outro dia, quando ele...
– Você não mudou nada – ele sustentava um sorriso de canto em seu rosto –, continua irritante.
Suas mesmas palavras, meses antes, haviam me machucado, mas hoje, agora, elas haviam me matado. Eu senti meu peito inchar algumas vezes enquanto tentava controlar meu choro sem sucesso algum.
Ele virou para frente novamente, e caminhou em direção á saída de Konoha.
– Sasuke, por favor não me deixe! – soltei com todas as forças que meu corpo me permitia ter, correndo em sua direção. – Se você for embora, eu vou gritar!
Em frações de segundos, o perdi de vista e petrifiquei, e o senti atrás de mim. Muito atrás de mim.
– Sakura – sussurrou calmamente em meu ouvido –, obrigado por tudo.
Minhas lágrimas pararam de escorrer. O frio agora transformou-se em calor. Meu coração parecia ter parado, e eu continuava imóvel, tão assustada que não era capaz nem de raciocinar.
Eu não soube o que aconteceu, algo com uma pancada, ou como um choque, eu fui perdendo a consciência.
– Sasuke-kun...
Foi a última coisa que sussurrei antes de adormecer, e a última vez também que eu o vira.
[...]
Acordei assustada, sentando na cama com a mão na cabeça. Uma enxaqueca horrível fazia minha cabeça rodopiar, e podia jurar sentir passarinhos voando ao redor dela, como em desenhos animados. E para piorar a situação, que já não era muito boa, eu havia sonhado novamente com aquele dia. O dia em que me humilhei e supliquei para que ele ficasse. Mas aquele foi o último dia em que fiz algo do tipo por alguém, eu nunca mais me colocarei em uma situação tão dolorosa e tão constrangedora como aquela.
Levantei lentamente da cama e caminhei até minha penteadeira, fitando meu reflexo acabado no espelho.
– É hoje, Sakura – sussurrei a mim mesma –, é hoje que tudo vai mudar.
Passara-se três anos desde que Sasuke fora embora, três anos desde que Naruto me fez uma promessa, três anos que eu nunca mais vi e nem tive notícias de nenhum dos dois. Mas o mais importante é que passara três anos de treinamento, e me tornei uma ninja de verdade, uma mulher de verdade. Tsunade, minha mestra sannin, me treinou e me prontificou para o mundo todo esse tempo, e hoje eu concluía meu treinamento com ela, tornando-me assim, preparada para o que pretendo enfrentar.
Tomei minha ducha e me preparei para encontra-la no campo de batalha, onde avistei todos os meus amigos lá, sentados um pouco distantes, torcendo por mim.
Ino estava lá também, sustentando um sorriso ansioso no rosto com um balde de pipoca em seu braço, onde Chouji tentava a todo custo pega-lo. Shikamaru estava quase deitado na arquibancada, com as mãos nos bolsos e uma terrível cara de tédio e irritação. Ao seu lado estava Kiba, que acariciava Akamaru enquanto conversa com Shino que tinha em seu rosto, como sempre, um semblante indecifrável. Hinata estava ao lado dos dois percorrendo toda a arena com os olhos perolados, parecia nervosa e assustada, como previ que ficaria. Avistei Neji e Tenten mais acima dos outros, um pouco afastados.
Estavam todos ali, e eu não sabia exatamente se aquilo era bom ou ruim, eu sabia que era a última vez que os veria.
– Sakura-chan! – girtou Lee, acenando da arquibancada, na parte de baixo, perto demais da arena.
Em fração de segundos, todos olhavam para mim. Sentia o olhar nervoso e inquietante deles, e isso me deixava mais angustiada.
– Sakura – disse Kakashi á minha frente.
– Sim, Kakashi-sensei.
– Não sou mais seu mentor, Sakura, não precisa mais me chamar assim.
– Força do hábito – sorri fraco.
Olhei ao redor e vi Tsunade se aproximando, junto a Gai, que parecia reclamar de alguma coisa nos ouvidos da Hokage.
– Sakura – chamou-me Kakashi novamente –, estou orgulhoso de você. Você cresceu muito desde a Equipe 7, e tornou-se uma forte e excelente ninja. Sasuke e Naruto ficariam orgulhosos de você se tivessem aqui.
– Não duvido que Naruto ficasse feliz. – sorri – Mas não me importa o que Sasuke sentiria ou não, seu nome nem deveria ser pronunciado aqui dentro de Konoha. – respondi séria e o vi estreitar os olhos.
– Achei que não viria mais – disse Tsunade se juntando a nós – Pra mim, você já tinha amarelado.
– Acha mesmo que perderia a chance de acabar com você? – perguntei em tom sarcástico – É hoje que você paga por todo sofrimento desnecessário que me fez passar durante esses anos de treinamento.
– Então vem, cereja, vem pra cima!
Apertei a bandana em minha cabeça e recuei assumindo uma posição de ataque.
– Wow, calma aí – disse Gai se intrometendo no meio de nós duas.
– Não temos mais tempo á perder, Gai – repreendeu Kakashi – Todos estão esperando ansiosos por isso.
– Ah e quem é você pra me dizer o que tenho que fazer, senhor ninja-que-copia-porque-não-sabe-fazer-nada-além-disso? Eu sou melhor do que você e se fosse nós dois no lugar delas eu acabaria com você em uma fração de segundo que você nem conseguiria se mover por uma semana com os golpes que eu ia dar em você, seu fracote!
– Desculpa, disse alguma coisa? – perguntou Kakashi, fingindo estar distraído.
Vi Gai ficar vermelho e se tivéssemos em um desenho, provavelmente sairia fumaça de sua cabeça nessas horas. Ele saiu marchando em direção á arquibancada, pisando forte no chão, como se quisesse quebrar ele.
– Boa sorte. – disse Kakashi a mim antes de seguir Gai.
Fitei Tsunade em minha frente. Era óbvio que não acabaria com ela, até porque eu a amava, mas daria um bom trato naquela velha peituda pra aprender a nunca mais judiar de mim do jeito que fez nesses três anos.
Vimos o sinal de um dos Anbus, nos encaramos atentamente e respirei fundo antes de defender seu primeiro chute. Ela tentava chutes e socos, ela estava me testando, sabia que conseguiria defender todos os seus ataques.
Escutei sons abafados vindo da arquibancada e pude jurar ouvir a voz de Naruto dizendo “Vai Sakura, você consegue!”. Olhei assustada para a arquibancada á procura do loiro que havia dito as mesmas palavras á alguns anos, enquanto torcia por mim em minha luta contra Ino.
Senti uma pancada forte em meu estômago caí de bruços no chão. Levantei-me nervosa, com raiva e ódio dentro de mim, não pelo ataque, mas por Naruto não estar mais aqui. Comecei o ataque contra a velha loira enquanto pensava em todas as coisas ruins que me aconteceram e que infelizmente, resultavam em um único nome, em um único alguém, no qual eu juro, um dia destruir.
– Oukashou No Jutsu!
Concentrei o chackra em minha mão e o impulsionei contra o chão, criando assim uma grande crátera no chão da arena. Tsunade saltou e me olhou surpresa, de fato, eu nunca havia quebrado o chão desse jeito antes, e isso me fez descobrir meu ponto de força.
Pensar nele me dava forças. O ódio que sentia por ele aumentava a intensidade de meus ataques e me impulsionava com mais velocidade.
– Sakura, você está feroz hoje – suspirou Tsunade, cansada de desviar dos meus ataques que a impedia de vir para cima de mim. – Lembrou-se de alguém enquanto me atacava? – perguntou com sarcasmo.
Ela me conhecia, sabia muito bem a verdade, mas felizmente não há nada que ela possa fazer para me enfraquecer naquele momento.
– Lembrei. – suspirei – Lembrei a Shizune, e do quanto ela sofre a anos em mãos de uma velha acabada como a senhora.
– Ora essa, sua bastarda! – ela veio pra cima de mim, e foi minha deixa para o próximo ataque.
Saltei para trás e comecei a sacar kunais com pequenas bombas explosivas e jogá-las em sua direção enquanto a mesma desviava de todas elas.
– Pra me vencer vai ter que fazer melhor que isso. – provocou
– Pra te vencer preciso fazer exatamente o que estou fazendo.
Mirei e atirei então a verdadeira kunai explosiva, onde caiu ao seu lado, bem onde queria. Ela me olhou com um sorriso de deboche. Em fração de segundos a kunai explodiu, arremessando Tsunade contra um pilar que havia ali.
Caminhei em sua direção com calma e firmeza nos pés, pronta para qualquer ataque repentino dela. Observei ela se levantar apoiando no pilar. Seu semblante era cansado e mesmo com os hematomas no rosto, ela sorriu.
– Vejo que fez o dever de caso direitinho.
Ouvi novamente o alvoroço da arquibancada e vi Ino quase chorando de emoção, como sempre, dramática.
– Mas mesmo assim, distraída de mais.
Senti o peso de seu chackra novamente contra mim. Meu corpo chocou-se contra o pilar que estava do outro lado da arena. E então, puft.
– Mas o que? – disse ela, incrédula –, Jutsu de substituição?
– Achou mesmo que cairia naquela? – sussurrei agora atrás dela.
Senti os ombros da mesma se levantar, surpresa. Ela virou-se de frente para mim, com os olhos levemente arregalados.
– Taihou Kyaku No Jutsu! – depositei novamente meu chackra em minha mão, levando-o dessa vez em direção á Tsunade, que em uma tentativa falha de se defender, levou em cheio um soco que poderia, se eu quisesse, tê-la matado.
Observei seu corpo no chão novamente do outro lado da arena, e caminhei em sua direção, já sabendo que era o fim da lua. E eu havia ganho.
– Sakura!
Virei para trás e observei Kakashi se aproximando rapidamente de mim, sorri um pouco forçado e esperei aquele lerdo chegar.
– Você realmente cresceu, menina. Eu estou impressionado. – disse ele.
Avistei a equipe médica entrando na arena e indo em direção á Tsunade, que continuava no chão.
- Obrigada, Kakashi-sensei! – sorri mais uma vez e corri preocupada até Tsunade.
Eu tinha controle absoluto sobre meus ataques, mas do mesmo modo como aquela pessoa me dava forças, às vezes acaba me desconcentrando também, e em uma dessas, eu poderia acabar fazendo algo sem querer, e me arrepender amargamente depois. Maldito seja aquele par de olhos ônix.
Corri até Tsunade e graças a minhas habilidades que felizmente não haviam sido afetadas psicologicamente, Tsunade estava bem. Ela iria se recuperar.
– Parabéns, Saky. – sussurrou ela já em cima da maca da equipe médica – Você conseguiu. Você já não é a garota fraca de antes, conseguiu derrotar a lendária sannin.